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Nem o céu, nem o inferno
Edição nº193
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O Presidente Luiz Inácio Lula da Silva criticou os empresários do setor sucroenergético em 24 de janeiro último, em Campinas, SP: “Quero dizer que não pode ser assim. O álcool quase acabou nesse País porque não houve seriedade e não houve ajuste de conduta entre empresários, governo e a indústria automobilística. Se quisermos fazer do etanol a matriz energética deste País, precisamos ter seriedade”, disse. Os empresários reagiram, é claro. Nem tanto pela fala presidencial estranha, porque ela apenas refletiu os humores populistas de Lula, dado a arroubos desta natureza - lembre-se que há quinze meses ele chamou entusiasticamente estes mesmos empresários de heróis - mas sim por ela refletir a maneira maniqueísta do País encarar a questão e de ser suscetível às oscilações de mercado. Lula tem razão em parte de sua fala. Realmente, isto não pode ser assim. O país precisa entender de uma vez por todas que o etanol é uma commodity agrícola e, como tal, tem seu preço determinado pelas condições climáticas e pelas forças do mercado. Este mesmo mercado que hoje paga um preço melhor, no início da safra pagava R$ 0,60 pelo litro de etanol, abaixo do custo de produção. E naquele momento não surgiu nenhum político bem intencionado para reivindicar ou tomar medidas para que o preço subisse. Simplesmente deixaram o mercado se autorregular... É como disse o presidente da Unica, Marcos Jank, em artigo recente: “Pode-se dizer que o etanol constitui hoje um exemplo de funcionamento correto das forças de mercado, gerando ajustes de preços. O principal pilar de sustentação do sistema é justamente o carro flex, que permite ao consumidor a escolha do combustível em função de seus preços relativos e vantagens técnicas e ambientais. Nenhum país no mundo oferece essa possibilidade de escolha de forma tão ampla e benéfica para o consumidor. E, ao escolher, o consumidor força os ajustes de mercado”. Felizmente, estas oscilações de humor – em um momento o setor está no céu, em outro no inferno – tendem a diminuir, informa Jank, e por causa de dois fatores que começam a sair do papel: O primeiro é a retomada do crédito para a formação de estoques reguladores (warrantagem), que não funcionou no ano passado por problemas nos balanços das empresas depois da crise de endividamento e falta de liquidez. O governo estuda, agora dentro de modelos e prazos adequados, financiar produtores de álcool para que eles estoquem o produto e, dessa forma, evitem as oscilações fortes no preço do combustível, que acontecem nos períodos de safra e de entressafra. Caso a medida se concretize, o financiamento virá por meio de linha de crédito do BNDES. O segundo foi a recente aprovação, pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), da entrada de novos agentes e a criação de empresas de comercialização no etanol, até então lamentavelmente proibidas pelas regras vigentes no mercado de combustíveis. Bem sucedidas, estas medidas ajudarão o setor e o consumidor, claro, a conviver num mercado mais equilibrado: nem no céu, nem no inferno.

Josias Messias - josias@procana.com.br

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